Literatura
Acesso à Literatura para Conhecimento, Autoconhecimento e Transformação
A literatura sempre esteve presente na vida das pessoas, independentemente do povo e do momento histórico. Seja na linguagem oral ou escrita, a literatura nos faz navegar por mares inexplorados, nos apresenta os valores sociais de diferentes épocas e culturas, denuncia o estado das coisas, nos conecta ao passado e nos possibilita imaginar futuros. Por vezes tratado como privilégio, o acesso à literatura foi definido pelo sociólogo e crítico literário Antonio Candido (1918-2017) como um direito humano, uma vez que a literatura corresponde a uma necessidade universal que precisa ser satisfeita por todas as pessoas sem distinção de qualquer natureza: cor, raça, etnia, classe, orientação afetivo-sexual, gênero, origem e outras diferenças sociais.
O IBEAC acredita que da mesma forma que se luta pelo acesso à saúde, educação, moradia, alimentação, justiça, liberdade, cultura, lazer e qualidade de vida de modo geral, devemos lutar pelo direito de acessar a literatura. Reconhecendo o potencial transformador das ficções ao nos colocarem enigmas e questionamentos, convidando-nos a organizar ideias sobre nós e sobre o mundo, o IBEAC aposta no direito das pessoas terem uma biblioteca perto de casa.
Apoie essa linha. Acesse nosso projeto incentivado (Lei Rouanet).
Está em nossas raízes
Desde o início, nós, do IBEAC, realizamos ações em diferentes realidades, valorizando a diversidade na promoção dos direitos humanos, como o direito humano à literatura, à leitura e à escrita.
Em 2001, o IBEAC, em parceria com os jovens agentes de Direitos Humanos do Núcleo Cultural Força Ativa, de Cidade Tiradentes/SP, criou a Biblioteca Comunitária Solano Trindade.
Em 2008, criou, em conjunto com um grupo de adolescentes de Parelheiros/SP, a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, que se tornou referência local e nacional em gestão de bibliotecas comunitárias e mediação de leitura. Essas atividades são protagonizadas por jovens, que realizam mediação de leitura em escolas e creches, criam e participam de coletivos, além de representar o IBEAC em espaços, conselhos e eventos literários e culturais. Em parceria com o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), criamos e fazemos a gestão de outras bibliotecas comunitárias em Parelheiros: Azul das Ondas, Ubuntu, Casa das Histórias e Sinfonia das Marias.
O IBEAC é uma das organizações fundadoras da Rede LiteraSampa (2010) e da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) (2015), das quais as bibliotecas Solano Trindade e Caminhos da Leitura participam ativamente. Em conjunto com as demais bibliotecas, são realizados projetos como o “Literatura e Direitos Humanos: para ler, ver e contar”, um círculo de leitura com adolescentes e jovens que se encontra mensalmente desde 2018.
Em 2024, o IBEAC venceu o Prêmio Jabuti na categoria Fomento à Leitura. Este reconhecimento celebra nosso compromisso em transformar vidas por meio da literatura. Em Parelheiros, temos trabalhado para criar bibliotecas comunitárias e promover o acesso ao livro como um direito humano. Em um Brasil que perdeu 6,7 milhões de leitores, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, seguimos acreditando no poder das histórias para abrir caminhos, ampliar horizontes e fortalecer comunidades.
E não é só na biblioteca comunitária que a literatura está presente.
Diante do desejo de que os livros e as leituras estejam ao alcance das pessoas, garantidos como um direito humano, o IBEAC desenvolve várias estratégias em suas linhas de atuação no território de Parelheiros/SP.
O Centro de Excelência em Primeira Infância, em São Paulo, estimula e promove a mediação de leitura em diferentes espaços da comunidade e nas casas das famílias, criando laços afetivos e promovendo acolhimento entre os bebês, as mães, as cuidadoras e toda a comunidade.
Em parceria com o Instituto Emília, o IBEAC publicou o livro “Nascidos para Ler, no melhor lugar para se viver”, que tem como autoras(es) educadoras(es), mediadoras(es), mães e avós, e vem sendo distribuído para os(as) bebês que nascem em Parelheiros, desencadeando pesquisas sobre o impacto da presença de livros nas casas de bebês que vivem em regiões periféricas.
Na Educomunicação, a literatura ilumina a análise das realidades, favorece a compreensão das práticas e inspira a criação de diferentes formas sensíveis e profundas de comunicação.
As Amaras, do grupo Amara Cozinha, participam de formações e rodas de conversa mediadas pela literatura, abordando temas como alimentação saudável, equidade de gênero, empoderamento feminino, geração de renda para mulheres e bem-estar. Este grupo, especialmente, teve formação sobre a autora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), que faleceu em Parelheiros, que em sua obra mais conhecida, Quarto de Despejo, denunciou a fome e as desigualdades do país.
Mas por que apostamos tanto na literatura?
Porque a literatura humaniza
Antonio Candido (1918-2017), já citado, nos ensina em seu texto “Direitos Humanos e Literatura” que humanização é “(…) o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor.” Portanto, os processos de alteridade, as infinitas possibilidades de aprendizagem e os nossos sentimentos — tudo isso nos torna tipicamente humanos. Podemos utilizar a literatura para promover essa humanidade, uma vez que, ainda segundo Antonio Candido, “a literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade e o semelhante.”
Nesse processo, é imprescindível considerar o respeito às diferenças. Paulo Freire (1921-1997), educador popular, em seu livro “Pedagogia da Autonomia”, afirma que “a prática preconceituosa de raça, de classe e de gênero ofende a substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia.” O desrespeito é uma prática que não reconhece a humanidade nos sujeitos. A literatura pode nos localizar nesse lugar do outro, por meio da alteridade e do reconhecimento da humanidade nas diferenças.
Porque a literatura nos transforma
Acreditamos no poder transformador da literatura. Ninguém continua a mesma pessoa depois de ler um livro. Com eles, os livros, viajamos, vivemos outras vidas, outras histórias. As fabulações e ficções, molas propulsoras da literatura, têm o poder de atuar em nossa subjetividade, nos constituindo enquanto sujeitos. E, por nos transformar, fazem de nós sujeitos ativos de transformação do mundo. Livros podem nos tocar profundamente e nos mobilizar para mudanças internas e externas, de forma individual ou coletiva.
































