Cuidados

Cuidados prioritários com a primeira infância desde a barriga – direitos das gestantes, mulheres, bebês e crianças pequenas

Histórico:​

Ao chegar ao território de Parelheiros, o IBEAC aprendeu a observar o presente e vislumbrar possibilidades de futuros, descobrindo o potencial de seus moradores. Em parceria com o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), decidimos priorizar o início da vida e cuidar com excelência da primeira infância, desde a gestação, reunindo nossas energias e aprimorando nossas tecnologias sociais.

A partir das experiências vividas pelas duas organizações ao longo de mais de 40 anos, em 2017, criamos o Centro de Excelência em Primeira Infância (CEPI). Com foco no presente do futuro, o CEPI tem como propósito a promoção do desenvolvimento integral de crianças, famílias e comunidades, com enfoque no bem-estar e nos direitos das crianças na primeira infância e de mulheres/mães, por meio de uma metodologia inovadora desenvolvida coletivamente.

Fazer COM:

As protagonistas da ação são as Mães Mobilizadoras, que residem e atuam em seis bairros (Barragem, Colônia, Jd. Silveira, Nova América, São Norberto e Vargem Grande) e têm como causa tornar “Parelheiros o melhor lugar do mundo para nascer e viver.”

As 14 Mães Mobilizadoras (MM) são reconhecidas como lideranças e referências em cuidados com mulheres/mães, gestantes, bebês e crianças pequenas. Suas ações foram sistematizadas em cinco dimensões que abordam: EMPODERAMENTO FEMININO: informação sobre direitos e cuidados; EXCELÊNCIA NO CUIDADO INFANTIL: estímulo à mediação de leitura, acesso a livros, brincadeiras, brinquedos lúdicos e desenvolvimento infantil; EDUCOMUNICAÇÃO: informações e atividades sobre direitos das crianças; EQUIDADE SOCIAL: direitos das pessoas com deficiência, diálogos sobre cultura de paz, valorização e respeito à diversidade humana; BEM-VIVER: práticas de (auto)cuidado com o corpo, mente, coração e meio ambiente.

Realidades e Desafios:

Os desafios são significativos, especialmente considerando que, embora o Brasil tenha, desde 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente, um dos documentos mais avançados do mundo, ainda não conseguiu efetivar uma política nacional de proteção integral para as crianças pequenas.

Além disso, há uma redução preocupante de recursos orçamentários para programas que garantem direitos e reduzem as desigualdades. Parelheiros é o 7º distrito mais desigual da cidade e contempla a 3ª maior porcentagem de pretos e pardos (56,6%), com mais da metade da população feminina (51%) e o maior percentual (11,6%) de crianças de 0 a 6 anos da cidade de São Paulo. A taxa de gravidez na adolescência é de 11,6%, e a violência contra a mulher, o feminicídio e as violações de direitos são problemas que afetam a vida no presente e o futuro de Parelheiros. A fixação de profissionais de saúde na região é precária, impactando negativamente o número de consultas de pré-natal e para crianças na primeira infância. É um dos distritos com os piores indicadores avaliados pelo Mapa da Desigualdade (NSP), figurando entre os 30 piores distritos para a primeira infância.

A importância estratégica da região contrasta com as baixas condições de desenvolvimento e de garantias de direitos proporcionadas aos seus habitantes. Há necessidade de fortalecer ações intersetoriais que garantam mais agentes participativos na proteção da infância. Investir na primeira infância é a melhor maneira de reduzir as desigualdades, enfrentar a pobreza e construir uma sociedade com condições sociais e ambientais sustentáveis.

A Casa no Meio do Caminho

A região Sul 2 do município de São Paulo é a segunda mais populosa da cidade, com quase 3 milhões de habitantes, e contempla os distritos mais vulneráveis identificados pelo Mapa da Desigualdade de São Paulo. Em relação à vida e ao nascimento, é a região com maior número de recém-nascidos, onde há o maior número de gestantes na adolescência e onde se realizam o maior número de partos da cidade. A Maternidade Interlagos é uma das referências para parto e atendimento de risco de gestantes e prematuros nos distritos dessa região, realizando cerca de 400 partos por mês, utilizando os 70 leitos do serviço.

Devido à alta demanda, à composição geográfica e social da região, os serviços de acolhida são escassos, especialmente em relação ao acolhimento no parto e no puerpério. Diante dessa realidade, faz-se necessário criar e apoiar espaços de acolhimento para gestantes e mulheres/mães puérperas, aprofundar a qualificação de lideranças comunitárias e fomentar ações intersetoriais que contribuam para a concretização de direitos, o empoderamento feminino e o enfrentamento das diversas violências.

As Mães Mobilizadoras do CEPI identificaram a invisibilização e vulnerabilização das mulheres/mães e seus bebês, que sofrem pela falta de acesso à informação de qualidade e à acolhida das suas demandas. A partir dessa necessidade, foi criada, em 2019, a Casa do Meio do Caminho, um espaço de acolhida para parturientes e puérperas.

Localizada entre o Hospital e a Maternidade Interlagos (HMI), referência para nascimentos na região sul, e o Ambulatório do HMI, onde bebês e crianças são acompanhados, além do pré-natal de risco, a Casa funciona 24 horas por dia, oferecendo apoio e acolhimento para gestantes antes do parto, nos dias de consulta e para as puérperas cujos bebês estão na UTI neonatal, fornecendo alimentação, hospedagem e cuidados para as gestantes, puérperas e seus acompanhantes.

Nossas crenças e ações

Para abraçar a causa da primeira infância e enfrentar os desafios, temos “convocado a aldeia” — como nos ensinou Tião Rocha — envolvendo moradores, serviços de saúde, educação, assistência social e organizações locais em rodas de conversa, parcerias e ações colaborativas. Nas conversas, os direitos são reafirmados de maneira clara, para que sejam incorporados ao cotidiano. A escuta ativa das gestantes e mães é fundamental, respeitando a diversidade das famílias para a transformação social.

Direito ao (Auto) cuidado

Histórico:

Em 2018, o time de educadoras e educadores populares que atuam no território de Parelheiros levantou uma nova demanda identificada nas rodas de conversa com a comunidade: a necessidade de realizarmos atividades para a promoção do bem-estar nas quebradas. É possível produzirmos bem-estar ou cuidar de quem cuida e mora nas periferias?

Para compreender essa demanda, uma pesquisa de doutorado foi realizada. A metodologia de Pesquisa Participativa Baseada na Comunidade mostrou, como diagnóstico situacional, que a vulnerabilidade social pode potencializar o baixo letramento emocional. Porém, para os participantes de Parelheiros que se engajaram em atividades de promoção do bem-estar, como práticas para a mente, o corpo e o coração, houve uma potencialização do autoconhecimento e de um olhar compassivo para sua comunidade. Isso resultou na produção de bem-estar e resiliência, ao mesmo tempo que impulsionou o empoderamento, o engajamento social, a consciência de contextos sociais opressores e a busca pela justiça social.

A partir dessa pesquisa e dos inúmeros intercâmbios e parcerias com a comunidade, serviços no território e universidades como a UNIFESP e Emory, o IBEAC criou um novo projeto para compreender melhor quais são as melhores perguntas e caminhos para resolvermos esse problema.

Desafios

  • Evidências científicas mostram que o letramento emocional é um fator fundamental para a promoção do bem-estar e, consequentemente, para a saúde mental. No entanto, ele é pouco acessível às populações vulnerabilizadas, como moradores de regiões periféricas, estudantes de escolas públicas e profissionais que atuam com essa população, seja na saúde, na educação ou em outras áreas.
  • O baixo índice de letramento socioemocional tem um impacto negativo direto na saúde mental, na aprendizagem e na atuação de crianças e educadores. Menos de 30% deles têm acesso a práticas eficazes e de qualidade que promovam o letramento.
  • Identificamos no território:
  • Educadores (mães, professores, cuidadores) com baixos índices de competência socioemocional para a mediação de conflitos no ambiente educativo.
  • Dificuldade de acesso e compreensão de informações por parte de educadores para a autorregulação e desenvolvimento de competências.
  • Baixa disponibilidade de dados socioemocionais de populações não privilegiadas.
  • Carência de recursos para o desenvolvimento de ações com grupos não privilegiados.

Nossas ações:

Pesquisamos as evidências científicas de que a prática de autocuidado pode ter efeitos positivos sobre a saúde, a educação e a qualidade de vida. O letramento emocional cultivado por meio dessas práticas ajuda a preservar a estrutura e a função cerebral do progressivo declínio relacionado ao envelhecimento, melhora a qualidade do sono, previne a síndrome de burnout, reduz a pressão arterial sistêmica, melhora o processamento emocional, com indicação para o autocuidado emocional e o tratamento de pessoas com transtornos afetivos, e diminui o estresse, os estados de ansiedade e a sensibilidade à dor.

Diante desse cenário, ações de promoção da saúde mental que contribuam para o cuidado integral são fundamentais para a transformação individual, social e global.

Para isso, adotamos o programa SEE Learning – Aprendizagem para Corações e Mentes, desenvolvido pela Universidade Emory, que foi desenhado para fomentar a aprendizagem social, emocional e ética na educação básica, superior e profissional. A estrutura do programa inclui três dimensões (Consciência, Compaixão e Engajamento) e três domínios (Pessoal, Social e Sistêmico). O objetivo é fortalecer a consciência sobre os próprios pensamentos e emoções, cultivar a autocompaixão e a compaixão pelos outros, e a capacidade de se envolver de forma mais ética em sua própria comunidade.

Diferencial IBEAC

Implementado em Parelheiros pelo IBEAC desde 2020, por meio das ações de educadores populares que atuam no território, o programa tem sido uma resposta eficaz à necessidade óbvia de uma formação pessoal, social e, se possível, acadêmica que facilite o cuidado integral e promova a saúde mental, desenvolvendo o letramento emocional em estudantes, crianças, jovens, mães, pais, lideranças comunitárias e educadores, além de cultivar habilidades que podem promover comportamentos que levem ao seu próprio bem-estar e ao dos outros.

Essa experiência ganhou visibilidade a nível nacional e internacional por ter sido utilizada como uma tecnologia social aplicada em comunidades periféricas e tem impactado positivamente o território de Parelheiros, com o envolvimento dos educadores populares, professores, coordenadores pedagógicos, mães e outras pessoas que estão envolvidas com a qualidade da educação das crianças.